A Verdadeira Sucessão Apostólica de Irineu Contra as Heresias 3, Capítulo 3
Autor Rasyon Heneyah
Observa-se que um argumento católico romano muito recorrente para defender o papado é o terceiro livro de Irineu de Lyon, em seu terceiro capítulo, onde ele supostamente estaria traçando a sucessão dos papas, utilizando a igreja romana por conta de sua autoridade magisterial suprema. Contudo, a realidade se distancia severamente desta interpretação enviesada de Irineu, na tentativa de a qualquer custo, defender uma doutrina que não tem base na patrística, tratando-se de um desenvolvimento posterior. Portanto, o autor explicará neste artigo qual é o contexto deste livro e o argumento de Irineu, e suas implicações práticas.

O que defendem os católicos?
Não há necessariamente um consenso universal entre os católicos romanos. Mas é comumente visto entre os apologetas católicos não conceituados, e até mesmo entre os membros mais comuns da igreja, uma argumentação de que Irineu, bispo de Lyon, teria escrito em seu Terceiro livro Contra as Heresias, Capítulo III, uma sucessão papal que remontava ao apóstolo Pedro. Provando assim a autoridade especial apostólica que a igreja de Roma tem sobre as demais.
Como pode-se ver no site no link, o Padre Paulo Ricardo afirma que:
/ “Santo Irineu se deu ao trabalho de fazer a lista dos Papas para mostrar que nossa fé vem desde São Pedro, passando para Lino, Cleto, Clemente, e assim sucessivamente, de modo que aquilo que um ensinou os outros ensinaram e continuam ensinando.”
Ou seja, membros oficiais da Igreja Romana, inclusive um membro muito renomado no catolicismo no Brasil defendem o que irei contra-argumentar. Não estarei então atacando um espantalho, mas um argumento real dos católicos romanos, que muitos por ele são seduzidos.
Contexto do Capítulo
O contexto desse livro, trata de Irineu que viveu entre o século II, defendendo a fé de hereges gnósticos, uma seita que surgiu naquele mesmo período, pregavam muitas heresias como que Jesus não assumiu uma forma carnal física, mas sim que só tinha a aparência, assim como que haviam outros deuses além do Senhor. Sendo assim, Irineu escreveu esta parte do livro, a fim, de principalmente, provar que gnósticos estavam errados ao falar que os apóstolos lhes ensinavam doutrinas secretamente, que não teriam passado para os não gnósticos. Irineu argumenta que as igrejas que eram mais próximas dos apóstolos, como por exemplo, a de Roma, que tanto o apóstolo Pedro, como o apóstolo Paulo morreram lá no final de suas vidas, não seguia nenhuma destas doutrinas que supostamente os apóstolos haveriam ensinado secretamente. Os apóstolos se preocupavam em demasia com a Igreja, por isso sempre lhes ensinava, seja por carta, seja oralmente. Irineu interroga: “Por que os apóstolos não teriam lhes ensinado tais doutrinas? Por que elas não estão em conformidade com a tradição apostólica preservada em escritura?”
-# Uma observação relevante, é que apenas o primeiro livro de Irineu contra as heresias tem cópias antigas completas em grego. As versões II-V não foram preservados em manuscritos gregos completos, sendo conhecidos por tradução latina e fragmentos gregos. Além do quinto livro, possuir uma cópia escrita especialmente em versão armênia.
O Argumento de Irineu de Lyon
Sobre a Tradução
Eu traduzi o 3º capítulo de Contra as Heresias III do New Advent para o português usando o Chat GPT, pedindo para que ele traduzisse sem nenhum viés, e não a colocarei aqui por razões óbvias. Não é recomendado eu sair divulgando uma tradução de algo que não tenho direitos autorais (tradução New Advent).
/ Segue abaixo o link para a tradução do New Advent para que vocês chequem e traduzam para consulta caso necessário.
Contra as Heresias Livro 3, Capítulo 3
Os Gnósticos
Existem muitas correntes dentro do gnosticismo. Irineu de Lyon estava contra-argumentando principalmente neste livro contra a corrente do gnosticismo valentiniano, que dividia a humanidade em três principais grupos: os hílicos, os psíquicos e os pneumáticos. Os hílicos seriam a maior parte da humanidade. Aprisionados na matéria, incapazes de obter a gnose, e entregados à suas paixões. destinados à perdição ou dissolução, sem acesso à salvação espiritual. Os psíquicos são pessoas incapazes de alcançar a gnose plena. Embora consigam ter fé, seguir uma religião e uma moral, apenas conseguem uma salvação inferior. Estes precisariam de obras e disciplina para serem salvos por sua natureza ser a psíquica. Seriam a igreja visível e os cristãos comuns. Os pneumáticos seriam os espirituais. Os únicos que possuem a gnose. São salvos por natureza pelo conhecimento secreto que obtiveram. as leis morais não são determinantes para sua salvação. Obs: Os hílicos são conhecidos como os que são da matéria, os psíquicos os da alma, e os pneumáticos do espírito.
-# Os Gnósticos Valentinianos se consideravam pneumáticos, por receberem revelações secretas dos apóstolos. Além de que os demais cristãos seriam os psíquicos, incapazes de receber a gnose plena. Justamente contra esta linha de pensamento que Irineu de Lyon estava lidando em seu livro.
Argumentação de Irineu
-# Foi realizada em quatro ‘grandes parágrafos’ que dividiram as ideias das 4 seções daquele capítulo de Irineu.
Primeira Seção
Primeiro Irineu de Lyon diz que a verdade, a tradição dos apóstolos está ao alcance de todos, manifestada em todo o mundo, rebatendo diretamente o conceito de que há um grupo seleto capaz de receber a gnose. Não era necessário recorrer à uma tradição invisível, que supostamente passava por uma sucessão até os apóstolos, através de um suposto discípulo do apóstolo Paulo chamado Teudas. Nós temos conhecimento o suficiente para saber quem realmente foi ordenado pelos apóstolos, assim como podemos demonstrar a linha sucessiva até a sua época. Os ensinamentos destes homens divergem em muito dos gnósticos. Se os apóstolos realmente tivessem obtido conhecimentos secretos como os gnósticos o falavam, teriam confiado esses conhecimentos aos seus sucessores, não em segredo para seres ‘perfeitos’. Os apóstolos deixaram aos seus sucessores a Igreja, para eles governarem, não como se fossem apóstolos, mas como bispos. Os sucessores deveriam ser perfeitos em tudo, irrepreensíveis. Homens que se desempenhassem sua função honestamente, seriam de grande benefício para a Igreja, mas se viessem a cair, grande calamidade seriam para a Igreja. Por que os apóstolos ocultariam a verdade de membros tão importantes para o desenvolvimento da Igreja?
Segunda Seção
O livro de Irineu ficaria demasiadamente grande, se ele se ocupasse de colocar as sucessões de todas as igrejas que eles tem ciência de que foram sucedidas pelos apóstolos. Por isto, Irineu escolheu uma, bastava uma igreja sucedida pelos apóstolos, que manteve sua doutrina fielmente, divergindo do gnosticismo para refutá-lo. Sendo assim, ele escolheu uma igreja para provar o seu ponto, a igreja localizada em Roma. Não que ela tivesse uma primazia jurisdicional, ou que houvesse uma figura de vigário de Cristo, se não ele apelaria especificamente para o papa de Roma, não para a sucessão apostólica em igrejas ordenadas por apóstolos. Usar a figura da igreja de Roma, naquela época era conveniente e coerente. Ela era muito grande, bem antiga, demasiadamente famosa e foi fundada e organizada pelo apóstolo Paulo e pelo apóstolo Pedro. A igreja de Roma era a opção perfeita para Irineu usar naquele momento. Irineu diz que é necessário que toda Igreja concorde com esta igreja, por conta de sua autoridade.
Neste momento, não podemos colocar a carroça na frente dos bois, portanto, não podemos retirar esse trecho de contexto e afirmar que todos devem seguir sempre a igreja localizada em Roma. Não foi isto que Irineu disse, ele quis dizer que naquele momento toda a Igreja deveria concordar com a igreja localizada em Roma, pois através dela as pessoas conseguiam chegar no que foi passado pelos apóstolos. Lembre-se de que isto não é uma promessa de que sempre seria assim, afinal, no parágrafo anterior, Irineu fala da tragédia que é quando o bispo sucumbe. Além de que a escolha de usar a igreja de Roma como exemplo foi por conveniência, não por causa de uma existência de um papado. Talvez você estranhe o porquê de Irineu de Lyon não utilizar uma linguagem temporal, especificando que isso apenas se aplicava naquele momento. Contudo, quando você pensa logicamente, conclui-se que seria puro anacronismo. De forma alguma, Irineu de Lyon escreveria prevendo e antecipando utilizações futuras de seus escritos. Seria incoerente imaginar que Irineu escrevendo para um público daquela época, a fim de refutar o gnosticismo, se preocuparia na utilização de uma linguagem temporal. O foco dele era um só: usar a igreja de Roma para mostrar a incoerência do gnosticismo valentiniano. Ele não poderia assinar embaixo de tudo que bispos futuros da igreja de Roma viriam a fazer, pois Irineu mesmo disse que bispos poderiam cair, e não apresentou nenhuma exceção para o bispo de Roma. A bíblia coloca inúmeros requisitos importantes para funções eclesiais, desde diáconos à bispos, seria um desrespeito sem igual para com Deus existir vigários de Cristo, isto é, substitutos de Cristo na Terra, que nem eram cristãos e que tinham uma conduta completamente degenerada, como é possível ser visualizado em alguns papas. O que um ímpio faria na cátedra de Pedro com a infalibilidade papal? Somente desonrar a Deus e as Sagradas Escrituras.
Terceira Seção
Os apóstolos fundaram a igreja em Roma e confiaram à Lino o ofício do episcopado. Lino não sucedeu Pedro, porque este nem mesmo foi bispo de Roma, o que é dito por Irineu justamente é que Lino foi o primeiro bispo, e teoricamente o ‘primeiro papa’. Sendo Assim, não haveria nada como uma cátedra de Pedro no passado. A lista sucessiva de bispos de Roma de acordo com Irineu é composta por Lino, Anacleto, Clemente, Evaristo, Alexandre, Sisto, Telésforo, Higino, Pio, Aniceto, Soter e Eleutério. Irineu também argumenta que Clemente de Roma havia convivido com os apóstolos, e havia ajudado a igreja em Corinto que estava em dissensão. Clemente declarou a tradição que recebeu dos apóstolos; a mesma que era pregada por Irineu de Lyon e negada pelos gnósticos que vieram décadas posteriores à carta de Clemente alegar que receberam ensinamentos secretos dos apóstolos.
Quarta Seção
Irineu de Lyon também utiliza a figura de Policarpo, bispo de Esmirna para provar seu argumento. Irineu o viu em vida, assim como era atestado por todas as igrejas da Ásia e sucessores de Policarpo, que ele tendo sido instruído pelos apóstolos, pregou o mesmo Evangelho que Clemente pregou e que Irineu pregava. Policarpo definitivamente era um homem mais confiável do que Marcião e Valentino, dois hereges, Valentino fundador da corrente gnóstica valentiniana, e Marcião criador do marcionismo, uma seita de matriz gnóstica. Policarpo inclusive foi responsável por ir à Roma ajudar muitos se afastarem dos hereges mencionados e retornarem para Igreja de Deus. Inclusive Policarpo já teria chamado Marcião de primogênito de Satanás em sua frente. Irineu também diz que a aversão dos apóstolos e seus discípulos era tão grande que sentiam repulsa de manter comunicação verbal com os corruptores da verdade. Irineu também se utiliza da igreja em Éfeso, que sendo fundada pelo apóstolo Paulo e tendo João permanecido nela até os tempos do imperador romano Trajano, também eram uma testemunha verdadeira da tradição apostólica.
Paralelo: Tradição Invisível da Igreja Romana e a Tradição Secreta Gnóstica Valentiniana
Pode-se elaborar um paralelo entre a tradição da corrente gnóstica valentiniana com a tradição da igreja romana. Ambos alegam que os apóstolos teriam ensinado uma tradição que vai além do que ensinaram nas Sagradas Escrituras, além de que essa tradição não tem nenhum rastreio que nem a dos gnósticos. Tal qual, o cardeal Newman precisou criar a doutrina do desenvolvimento de doutrina, na tentativa de explicar o porquê a tradição atual católica romana difere em muito da tradição apostólica que como Irineu disse está ao alcance de todos.